23 de jun de 2010

Ainda Saramago - algumas considerações.

Recebi o texto abaixo de uma amiga muito querida e decidi postá-lo, primeiro para que os alunos possam compreender o ateísmo de Saramago e segundo porque brevemente teremos em nossa escola a presença de Leonardo Boff.

Saramago e a busca espiritual
                              Leonardo Boff, Petropolis, Brasil

José Saramago se considerava ateu, mas de um ateísmo muito particular. Entendia o "fator Deus" como vem veiculado pelas religiões e pelas Igrejas como forma de alienação das pessoas acerca dos graves problemas da humanidade. Seu ateísmo era ético, negava aquele "Deus" que não produzia vida e não anunciava a libertação dos oprimidos.

Essa compreensão pude discuti-la pessoalmente num memorável encontro na noite do dia 5 de dezembro de 2001 em Estocolmo, na Suécia. Ele viera à cidade para um encontro-celebração de todos os portadores do prêmio Nobel. Eu lá estava pois fora indicado para o prêmio "The Right Livelihood Award", chamado de Nobel Alternativo da Paz. Nessa ocasião convidou a mim e à minha companheira Márcia para um jantar. Foi um festim de espiritualidade mais do que de literatura. Levei-lhe um livro de contos indígenas "O Casamento do Céu com a Terra" e para a sua esposa Pilar um outro, "Espiritualidade: caminho de realização". Ele logo foi dizendo: "quero o livro de espiritualidade, pois pretendo me aprofundar neste tema". E foi então que falamos longamente sobre religião, Deus e espiritualidade. Negava a religião, mas não a espiritualidade como sentimento do mistério do mundo, da profundidade humana e do amor aos oprimidos. Mostrou sua admiração pela Teologia da Libertação por fazer do "fator Deus" uma força de superação da miséria humana. A comunhão foi tão profunda que fomos madrugada adentro, já em seu quarto de hotel, como se fôssemos velhos amigos. Márcia estava lendo o seu “Ensaio sobre a cegueira”, no qual lhe fez comovente dedicatória.

O e-mail abaixo revela a experiência espiritual que juntos vivenciamos:

"Querido Leonardo, querida Márcia,

Para nós, o grande acontecimento em Estocolmo foi ter-vos conhecido. Não exageramos. O resto foi a pompa e a circunstância do costume, em que até mesmo o que é sincero e autêntico acaba por se perder no meio dos formalismos e dos artifícios. O tempo que estivemos juntos foi um banho para o espírito. Quem dera que em breve surja outra ocasião.

Os anos são todos terríveis para aqueles para quem a vida é terrível. Às vezes as coisas correm melhor no mundo e isso leva-nos a pensar que estamos em paz, mas o mesmo não poderiam dizer os milhões de seres humanos cujas opiniões contam tão pouco que praticamente não se dá por elas. E se de alguma maneira chegam a manifestar-se, os modos de as silenciar não faltam. O vosso trabalho cria e reforça consciências livres ou em processo de libertação, precisamente o que anda a faltar no mundo. Não sois pessoas para ceder ao cansaço, e essa é uma característica dos que são imprescindíveis.

Desejamo-vos o melhor, sabendo que o melhor para vós é que possa melhorar a vida àqueles a quem haveis consagrado a vossa.

Com todo o carinho

Pilar e José Natal de 2001".

Ganhamos um amigo e a fé me diz que agora mergulhou naquele Mistério de amor que sempre buscou.













Um comentário:

  1. A perda de José Saramago é algo marcante (negativamente), pois dá fim ao seu ciclo importantíssimo na literatura. Apesar de ser muito polêmico, entendo o seu modo de pensar em relação ao mundo, a respeito das religiões. Para ele, Deus foi criado com intuito de controlar os diversos problemas existentes na sociedade, mas deixava claro que isso não era ruim. Apesar de discordar de sua opinião, acredito que ele tenha dito isso não só com a finalidade de expor sua opinião, mas também nos alertar, mostrando-nos que devemos contestar antes de aceitar. Ele apenas queria que nos tornássemos menos alienados nesta sociedade alienadora.
    Nome: Alex Silva
    Turma: 3003

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